Mecanismos de Defesa

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Sáb, 07 de Agosto de 2010 22:37

Mecanismos de Defesa

 

 

Mecanismo de adaptação psicológica, que contribui para o ajustamento do homem ao seu meio biopsicossocial, destacam-se os mecanismos psicológicos que permitem a acomodação de conflitos. Segundo a Psicanálise ( Freud, Ana Freud, Fenichel...), o estudo desses mecanismos, permite compreender melhor as maneiras de o indivíduo contornar os obstáculos que se antepõem aos seus desejos. Permite-nos compreender melhor os métodos defensivos do ego para se livrar da ansiedade.

Referente à Gestalt, mecanismos de defesa ou de evitação do contato , são gestalts inacabadas, ciclos interrompidos por uma perturbação na fronteira do contato( fronteira entre eu mesmo e o mundo), perturbação de origem interna ou externa ao sujeito, que não permite o desabrochar do self (processo especificamente pessoal e característico de sua maneira própria de reagir, num dado momento e num dado campo, em função de seu estilo pessoal. Não é o seu “ser”, mas o seu “ser no mundo”- variável conforme as situações). Esses mecanismos de defesa ou de evitação do contato podem ser saudáveis ou patológicos, conforme sua intensidade, sua mabeabilidade, o momento em que intervêm e, de uma maneira mais geral, sua oportunidade.

Diversos outros autores os definem com vocabulários diferentes: mecanismos neuróticos ou perturbações neuróticas na fronteira de contato (Perls), perdas da funçãp do ego( Goodman), defesas do eu( André Jacques), resistências-adaptação(Polster), distúrbios do self ou interferências na awareness(Latner), interrupções no ciclo de contato(Zinker), Mecanismos neuróticos de evitação( Marie Petit), etc..

 

 

Entre os vários mecanismos de defesa / adaptação psicológica, destaco aqui, aquelas na qual considero as mais utilizadas:

 

Racionalização- O homem é conceituado como ser animal racional, mas, em muitas situações este se comporta como um ser irracional, para ajustar-se às situações. Todavia, sempre procura dar uma explicação ou justificativa para o que percebe, sente e faz.

Essas racionalizações favorecem muito o indivíduo. As racionalizações compensatórias, permitem a resolução de conflitos.Ex.: A pessoa que ansiosamente esperava ganhar o prêmio da loteria e que ao conferir seu bilhete vê não ter sido premiado, dá de ombros e comenta com o vendedor: “Foi até bom, que muito dinheiro estraga a vida da gente”.

A empregada que foi despedida pela patroa, antes de pensar no que havia de bom na casa, diz logo para si mesma: “Também... a começar da dona todos eram loucos”. 

 

Fantasia -Talvez a felicidade se resuma em desejar-se muito e contentar-se com pouco. Conquanto todos nós queiramos ser felizes, dificilmente nos contentamos com o que temos e cada dia desejamos mais, porque somos constantemente motivados a comprar automóvel, visitar o estrangeiro, assistir espetáculos caríssimos, etc.. Não podendo obter tudo que ansiamos, e muito menos sobrepor todos os obstáculos da vida, recorremos, até com certa freqüência, aos devaneios, à fantasia, trocando este mundo real por um mundo fantástico, onde as barreiras são transpostas com facilidade. Esse mecanismo é que nos permite temperar as durezas da realidade.

A fantasia é mais freqüente em crianças e adolescentes, que não vêem o mundo pelo prisma da objetividade. São mesmo raríssimos os casos como o daquele que, ao ser indagado pela professora o que faria se uma fada lhe desse uma varinha mágica para transformar tudo que existe neste mundo, respondeu: “A fada e a varinha não existem a não ser na mente dos homens”.Certamente a professora esperava que o menino dissesse: “Tocaria numa pedra pedindo que se transformasse num automóvel do último tipo”.

O perigo da fantasia é o indivíduo recorrer-se a ela com muita freqüência, distanciando-se cada dia mais do mundo real que o cerca.

 

Projeção - Sem que percebamos, muitas vezes vemos nos outros defeitos que nos são próprios. Pensamentos e sentimentos na realidade nossos são atribuídos a pessoa e objetos que nos cercam.Ex.: O aluno que se sente frustrado pela reprovação no vestibular, opõe-se dizendo que o professor X é incapaz, ou o curso pré-vestibular é fraco, na realidade está atribuindo ao mestre ou à instituição a sua própria incapacidade.  

Passeando com o pai, o menino vê um cachorro que se aproxima e diz: “Cuidado, papai, que ele morde”.

 

Deslocamento -Uma emoção ligada a uma idéia inaceitável pela própria pessoa e recalcada no inconsciente, pode transferir-se dessa idéia para outra neutra. Essa idéia torna-se consciente sem haver um conflito, sem levar o indivíduo ao estado de ansiedade.

Quantas veses um balconista não vê um casal brigando por causa da cor da camisa que o filho escolheu? O marido diz que amarelo é cor sem graça. A mulher toma o partido do filho. Minutos depois já não se sabe por qual motivo marido e mulher estão-se desentendendo, enquanto o filho troca idéias com o balconista sobre o futebol. A camisa amarela, no exemplo citado, é o que vulgarmente chamamos de “pezinho”. É um “pezinho”para que idéias sobre o modo de ser da mulher, com as quais o espose não concorda, sejam externadas por este.

 

Simbolismo - “É uma representação consciente ou inconsciente de um fato psicológico por outro equivalente”. Assim, como a cruz simboliza a fé para o ocidental, a espada a guerra, a aliança o matrimônio. A pomba branca a paz, o vômito constante de um escolar pode simbolizar o desgôsto que lhe causa a professora, uma cuspidela pode representar o desdém que temos por certo sujeito imoral, o chupar de dedo de um menino, quando a mãe amamenta ao irmão menor, pode significar a perda do privilégio de sugar o seio materno.

Freud, em sua obra “Os Sonhos”, estudou profundamente os símbolos oníricos. Para ele, água, casa, guarda-chuva, objetos pontiagudos, etc., simbolizam ora a fecundidade, ora os órgãos genitais masculinos, ora os femininos, etc..

           

Adiamento das Satisfações -A fim de obter prazeres mais duradouros, muitas das satisfações são adiadas pela pessoa. Em vista de uma felicidade eterna fora deste mundo, muitos religiosos procuram não satisfazer muitas de suas necessidades. Às vezes esses adiantamentos ocorrem como racionalização da inatividade.

Nas escolas, não somos sugestionados adiar muitos de nossos desejos para o futuro?  Incutir no estudante a idéia de que, uma vez formado, terá ele a oportunidade de satisfazer os seus múltiplos desejos pessoais, é um dos mais antigos costumes.

O adiamento de satisfações é benéfico, quando ainda não se tornou um hábito. O masoquismo, tanto sexual como moral, evidencia o adiamento desregrado de satisfações, em que as referidas satisfações tornam-se elementos secundários, ou sem importância alguma para a pessoa.

 

Sublimação-É o processo através do qual a energia de uma tendência reacional é descarregada em ações socialmente mais aceitáveis. É agir de modo sublime, segundo os padrões sociais adotados pela comunidade em que vive.

Ex.: Por deficiências próprias, o poeta, que se sente impossibilitado de obter o amor da mulher desejada, sublima nos versos os seus desejos.

 

Compensação-É um mecanismo que permite ao indivíduo compensar certas deficiências físicas ou psicológicas através do desenvolvimento de determinadas capacidades.

Como exemplo, há casos de senhoras que não podendo ter filhos se dedicam à direção de escolas infantis, ou quando perde seu filho nas drogas, e a partir de então dedica-se como voluntária/o numa instituição de recuperação social, etc..

Há ainda a chamada supercompensação, onde um menino sofria da garganta e quando adulto tornou-se um dos maiores cantores populares do seu país. Outro teve as pernas queimadas num incêndio havido em sua escola, mas anos depois era um magnífico campeão de corridas.

Bem, muitas vezes o sujeito medroso faz alarde de uma valentia que não possui. O tímido procura se mostrar sociável, para vencer as barreiras formadas em seu próprio ser. Para compensar muitas de suas deficiências, muito político procura convencer o povo de certas qualidades que não possui.

Generalização-É o mecanismo através do qual o indivíduo atribui a muitas pessoas, ou ao gênero humano, aquelas verdades desagradáveis ao seu ego. Ao ser prejudicado pelo outro, normalmente, além de xingar essa pessoa, o cidadão procura ofender todos os princípios da mesma. O que é particular ele transforma em universal. A generalização é um dos mais conhecidos mecanismos, em virtude da freqüência com que  o homem dele se vale nos seus ajustamentos sociais.

 

Na Gestalt, Goodman distingüe quatro mecanismos principais:

 

Confluência- A criança está em confluência normal com sua mãe (simbiose), assim também o amante com a amante, o adulto com sua comunidade, e até o homem com o universo, por pouco que se sinta em harmonia mística com ele ( sentimento “oceânico” de comunhão ou êxtase).

A confluência é, em princípio, seguida de retração, permitindo ao sujeito reconquistar sua fronteira de contato, reencontrar sua própria identidade, marcada pela singularidade e a diferença. Quando essa retração se torna difícil, a confluência se torna crônica, então o funcionamento pode ser qualificado como patológico (neurótico, até psicótico).

Aquele que sofre de confluência patológica não sabe o que faz o que a quem, assim, a fronteira do contato é abolida, ex.: “Nós nos amamos com loucura”.

 

Introjeção-  É a própria base da educação da criança e do crescimento: nós só podemos crescer assimilando o mundo exterior, certos alimentos, certas idéias, certos princípios...

Mas se nos contentarmos em engolir esses alimentos exteriores sem os mastigar, eles não são digeridos, ficam em nós como corpos estranhos, parasitas.

O introjetor faz o que os outros querem que ele faça, assim, na introjeção, o mundo exterior me invade,ex.: “Deve-se amar o parceiro, e só ele”.

 

Projeção- É a tendência a atribuir ao meio a responsabilidade por aquilo que tem origem no self.

O projetor faz aos outros o que os acusa de lhe fazer, assim , na projeção, eu invado o mundo exterior, ex.: “Ninguém me ama”.

Entretanto, a projeção saudável continua sendo indispensável: é ela que me permite o contato e a compreensão do outro. Eu não posso, de fato, , imaginar o que o outro sente se não me coloco mais ou menos em seu lugar.

 

Retroflexão- Consiste em voltar contra si mesmo a energia mobilizada, fazer a si aquilo que gostaria de fazer aos outros ( ex.: mordo os lábios ou cerro os dentes, para não agredir), ou ainda fazer a si aquilo que gostaria que os outros fizesses ( ex.: o elogio).

A retroflexão saudável é sinal de educação social, de maturidade e de auto-controle: eu não posso me permitir a expressão espontânea, até “selvagem” de todas as minhas tendências agressivas, nem de todos os meus desejos eróticos,  e a sociedade cultiva em mim, para isso, princípios e sentimentos de culpa que moderarão minha raiva ou meu desejo, sentimentos que eu, em parte, vou “engolir”.

O retroflexor faz a si o que queria fazer aos outros, assim, na retroflexão, eu invado meu próprio mundo interior, ex.: “Eu me amo”.

 

 

Os mecanismos de defesa são encontrados em pessoas normais e neuróticas, nestas, logicamente, com maior regularidade. A diferença básica entre as adaptações  do normal  e do neurótico, por exemplo, reside no fato de que o normal, até certo ponto, não perde a noção da realidade, enquanto o neurótico se conduz de modo a não distinguir com facilidade o mundo subjetivo, o que então, origina o seu desajustamento.

 

É claro que esses mecanismos podem ser normais e necessários ao equilíbrio psicossocial, eles são, no mais das vezes, uma reação saudável de adaptação. Somente suas exacerbações, principalmente, sua cristalização em momentos impróprios constituem um comportamento neurótico( ou até psicótico).

 

Por outro lado, é preciso esclarecer que esses mecanismos de adaptação psicológica existem de modo combinado e inter-relacionados, e que não é tão simples distinguir a personalidade normal da neurótica em nossos dias.

 

 

Marcia Gomes Rizzo

Psicóloga

 

 

Última atualização ( Seg, 09 de Agosto de 2010 01:14 )